OPINIÃO

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Carlos Leen - 09:13 12/09/2017

A idiotização das redes sociais na era da pós-verdade

Com o advento das redes sociais qualquer cidadão com seu equipamento conectado a internet, pode compartilhar seja qual for a notícia. Desta forma emitem toda a sorte de opiniões, sem o devido conhecimento de causa.

O filósofo Thomas Hobbes dizia lá nos primórdios do iluminismo que "o homem é lobo do homem". Me parece que as redes sociais vieram para dar razão a esta afirmativa. Não aproveitamos nada de toda uma tradição de pensamento de séculos atrás. Dos Vedas indianos até Cristo, passando pelo intelectuais da revolução francesa donde retiraram a máxima "liberdade, igualdade e fraternidade" e toda a ciência jurídica produzida na contemporaneidade. O mundo digitalizado após a internet 2.0 zerou tudo.

A imbecilidade, a boçalidade e outros tantos adjetivos nada publicáveis são a todo momento compartilhados ao vivo por vários internautas que se acham cientistas políticos e magistrados do Direito. Vez ou outra temos linchamentos físicos e/ou virtuais. É o caso da moça que foi acusada injustamente de fazer magia negra com crianças e por isso foi espancada até a morte. Ou mesmo quando alguma mulher é filmada em ato sexual ou sem roupa. Showzão para a hipocrisia.

No campo da política o drama é ainda maior. Os apedrejamentos acontecem gratuitamente feitos por certos cristãos que não entenderam nada do que o próprio Cristo pregava. "Antes de olhar o cisco do olho do próximo, repare na trave que existe no seu" ou então "quem nunca pecou que atire a primeira pedra". E se formos aprofundar o que o filho de Deus afirmou quando em sua passagem na terra, verificaremos que boa parte da turba de idiotas da net está por fora. Isso abrange o que estes entendem pelo significado do termo "comunista". 

Para Cristo era necessário repartir suas riquezas com os mais pobres pois o dinheiro corrompe as pessoas. Ele não condenou prostitutas, nem ladrões. Pregava o amor ao próximo e a comunhão, o desapego, algo mais próximo ao que chamamos de "comunismo", uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais, baseada na propriedade comum dos meios de produção. 

E claro, a culpa é toda do PT, um único partido. Uma única liderança, no caso a de Lula, é responsável por tudo desde unha encravada ao atraso do ônibus. Os idiotautas (mistura de idiotas com internautas) repetem como torcedores de time, o que ouviram falar por aí. Não se tem certeza de nada, não há provas, apenas convicções. Essa sanha chegou inclusive a setores do judiciário. São os tempos da "pós-verdade", onde não importa o que realmente aconteceu, importa é o que eu penso sobre.

E as aberrações não param por aí: "Escola sem partido", ou mesmo "somos apolíticos mas estamos prostestando contra o Lula". Estes têm todo o direito de se manifestar, sem agredir fisicamente o Lula e nem ninguém, assim como se pode manifestar contra Dória, sem agressões físicas, mas expressando uma posição política. Agora, dizer que são apolíticos é ignorância gritante ou ma-fé. São de direita e estão fazendo política. O que está em questão é se são burros mesmo ou impostores. Não ter ideologia é uma forma de ser ideológico também.

E o recente caso da exposição patrocinada pelo Santander? A mostra "Queermuseu" causou enorme polêmica graças ao caráter subversivo de sua temática. Me parece, que existe em comum um DNA de intolerância com a liberdade de expressão, de intolerância com o ponto de vista do outro, um traço de narcisismo cultural que atenta contra a modernidade e aponta para o conservadorismo. Enfim, é só para refletirmos. 

Estamos bem próximos de voltarmos a queimar livros em praça pública. Quem sabe também queimar pessoas vivas, acusadas de bruxaria. 

Sinceramente, eu achava, baseado no que conheci da dialética do esclarecimento da Escola de Frankfurt, que esta intensa comunicação (redes sociais) traria mais razão e não menos civilização. Como o próximo salto das forças produtivas na comunicação será o salto quântico, prefiro não fazer especulações. O cenário não é bom.

AUTOR

Carlos Leen

Natural de Imperatriz - MA, Professor de História da Rede Estadual de Ensino, graduado pela Universidade Estadual do Maranhão e pós - graduado em Educação em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Maranhão. É pesquisador e autor do livro "O Estreito Desenvolvimento: História dos Conflitos da Barragem".

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