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Marcos Fábio - 19:15 06/02/2018

Os livros são objetos transcendentes

Caetano estava certo quando cunhou essa frase no CD Livro Vivo. Caetano é chato, mas tem razão no que diz no mais das vezes. Os livros são mesmo coisas que de coisas não têm nada.

Foi Walter Benjamin quem disse que a obra de arte genuína tem aura. Não se referia aos livros, pois se assim fizesse, teria que desentortar o “u” e triplicar o “r”, para dizer, certeiro, que os livros têm alma. É de alma que eles são forjados; de vida, enfim.

Dito isso, passemos às evidências. Livros não ficam nas estantes todos da mesma forma. O leitor comum não percebe, o leitor incomum nem imagina, mas eles nas estantes são todos uns insubordinados. Falam mal uns dos outros, fazem conluios (livros dessa ou daquela corrente se juntam para continuar a pendenga em que seus autores, outrora, se engalfinharam), mudam de estante quando lhes convêm, trocam de vizinhos, expulsam os malquistos da sua companhia... Você, que tem estantes de livros, já reparou que, de vez em quando, um livro aparece no chão assim, “do nada”? Não tenha dúvida quando isso acontecer: alguma ele aprontou e os seus desafetos o expurgaram de lá.

Mas livros nas estantes são como uma família. Há os que mandam no “pedaço”, geralmente os clássicos; há os neófitos, os dos autores que estão em início de carreira e que não apitam em nada; há os menorzinhos, pockets, que têm documento mas não têm tamanho e todos os outros os colocam onde querem; há os técnicos, que parecem estar sempre de terno e gravata e carregar todo o superego da família; e há outros ainda, inclassificáveis.  E, uma vez postos em família, não gostam de se separar. Esperneiam quando um deles se vai, ou por doação ou por roubo ou por extravio.

Que os livros são nossos professores é clichê já. Mas e o que dizer quando eles não querem ensinar? O leitor já viveu aquela experiência de ler um livro uma, duas, três vezes e não conseguir extrair nada dele? E aí você fica pondo a culpa no hermetismo do autor. Quando isso acontecer doravante, conforme-se: absolva o autor; o livro mesmo é que não foi com a sua cara e lhe fechou as portas daquele assunto... pelo menos,  nas suas páginas.

Livros ficam velhos...e, quanto mais velhos, melhores. São como o Conselheiro Aires, do último romance do Machado de Assis. Quando mais velhos, dão melhores conselhos. Livros ficam velhos, mas não envelhecem.  Quando um livro se percebe envelhecido, ele se suicida. Como? Chamando o seu exército particular de cupins que, benfazejos, dão cabo dele, num rito sumário e indolor.

Quem convive com os livros aprende, com o tempo, a decifrar os seus achaques, suas rabugices, suas vicissitudes, seus estados alterados.  Aprende a reconhecer a família de cada um nas estantes. Aprende a esperar o tempo certo de apreender o melhor de cada um deles, mesmo que alguma página (ou todas) amareleça. E aprende, fundamentalmente, a amá-los, a respeitá-los e a cuidar deles.

Para com o bom leitor, o livro é generoso.

AUTOR

Marcos Fábio

Professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão e membro da Academia Imperatrizense de Letras.

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