PALAVRAS NO AVESSO

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Marcos Fábio - 20:24 16/05/2018

O poder da leitura

Era para ser apenas um pedaço de uma aula que não tinha terminado na aula anterior. Eu estava ministrando o conteúdo “Letramento Literário” para os alunos e alunas da disciplina “Fundamentos e Metodologias do Ensino de Língua Portuguesa”, do quinto período de Pedagogia da Ufma, em Imperatriz. Depois que expus os slides e fechei o conteúdo, me deu vontade de ir um pouco além e encerrar, de fato, aquele assunto na aula seguinte, pedindo que levassem um “livro que ama” para falar um pouco dele. A ideia era que, já que tínhamos conversado sobre a importância da literatura para a formação, principalmente, da criança, do valor que a leitura tem como instrumento de formação, etc, nada melhor do que fazermos um “exercício prático” de ver o que a literatura pôde trazer de bom para a vida dos futuros e futuras pedagogos/pedagogas.

Assim fizemos. Montamos um “círculo de leitura” e cada um, a seu tempo, foi falar do “livro que ama” e “por que ama aquele livro”. Deveria ter durado uns quarenta minutos. Durou mais de duas horas.

Um a um, eles e elas foram narrando suas experiências com os livros. E foram tantas histórias belíssimas e tão significativas das experiências com “o livro que ama”. Tantos depoimentos emocionantes. Tanta coisa dita sobre a experiência da leitura. Uma reencontrou o livro da sua infância em um monte de livros que iam ser queimados – e mostrou, emocionada, o livrinho da sua adolescência. Outra lê “o livro que ama” há dez anos, sempre com a mesma emoção. Outro reviu os seus conceitos de educação depois de ler tal livro de um tal filósofo iluminista. Outra deu a volta por cima depois de ler seu livro predileto, presente de sua mãe. Outro mudou a vida toda, num momento de transição, por conta das mensagens de um certo livro. Muitas e muitas histórias foram compartilhadas. Todas cheias de emoção. Todas com muita alma. Alguns trechos de livros foram lidos, o que ampliou, ainda mais, a força deste “momento literário”, deixando-o mais significativo.

E este é, de fato, o poder que tem a leitura. Nenhuma leitura é gratuita, todas elas deixam algo na gente – em maior ou menor grau. Ninguém sai de um livro a mesma pessoa que iniciou a leitura. E nem estamos falando de livros religiosos, de autoajuda, da Bíblia. Nada. Estamos falando de leitura corriqueira, livros encontrados em qualquer livraria, até no catálogo da Avon... Se todos os livros nos tocam, imagine aqueles que amamos...

Eu tinha pedido, para dar mais entusiasmo à atividade, que eles imaginassem que estavam participando de uma seleção para professor de um lugar e que a tarefa final seria “vender” o livro para o avaliador (no caso, eu). Quem “vendesse” melhor o seu livro ganharia a vaga de professor – com salário de sete mil reais...

Nem precisava ter montado esse expediente. As histórias foram tão envolventes, tão revestidas de sentimento, de uma “verdade vivida” que eu, como avaliador, empregaria todos e todas pela sinceridade do que tentaram me “vender”. Acho que agora estou com a batata quente de ler todos os livros “vendidos” pelos esplêndidos vendedores e vendedoras de literatura...

AUTOR

Marcos Fábio

Professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão e membro da Academia Imperatrizense de Letras.

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