PRÁXIS POLÍTIKA

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César Figueiredo - 00:26 17/07/2017

Petismo e Lulismo: o que sobrou desses dois conceitos

Com certeza, um dos fatos políticos mais importantes que ocorreu no final da ditadura militar foi o nascimento do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1979, capitaneado pelo seu expoente maior, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. O PT nascia assustando, tanto a elite tradicional quanto a própria ditadura militar, pois pretendia ser um partido que funcionária por fora da ordem nacional, dito de outra maneira, um partido que nascia amalgamando os anseios da classe operária e dos movimentos sociais. Ainda, trazia para junto de si um ideário esquerdizante dos grupos socialistas que compunha o PT na origem, dando um aspecto de nova esquerda no Brasil.

Embora esse ideário caboclo de esquerda à brasileira, o PT nunca foi de fato um partido revolucionário, uma vez que nunca apresentou em suas teses congressuais nada que o identificasse ou aquilatasse para tal investida de tomada de poder da classe operária pelas armas. Imprimia em seu nascedouro realmente a tese de partido oponente do status quo e de aguerrido na luta em prol dos trabalhadores; também, nascia e se solidificava como sendo o partido da ética e da política fomentada para os de baixo, melhor dizendo, para a raia miúda. O PT manteve-se nesse curso durante todo o final da ditadura militar e início da Nova República, nos final dos anos 80. Porém, no final dos anos 80 começou a granjear musculatura ganhando prefeituras importantes em grandes capitais, como em São Paulo e em Porto Alegre: era o passo que faltava para que o oponente partido começasse a se institucionalizar ganhando força e iniciar o seu roteiro como partido da ordem dentro da grande política nacional.

Na década de 90, mais vitórias para o PT com conquista em governos de estados, capitais estaduais e uma grande ampliação nos números de parlamentares, transformando-o, de fato, num grande partido na seara política brasileira e disputando, consequentemente as eleições para Presidente do Brasil a partir de 1994 num nível paritário com outros principais partidos nacionais. Mesmo tornando-se um partido da ordem, o PT ainda tinha em sua mística fundadora de ser um partido da mudança, que agregava a esta agremiação política uma distinção perante os outros com a mobilização de uma militância combativa, sob a insígnia do petismo. Igualmente, havia o mito do herói que mobilizava essa militância através do sua principal liderança, Luiz Inácio Lula da Silva. Ou seja, dois elementos combinados e somados em força simbólica que fazia com o que o PT aglutinasse inúmeros votos nas sucessivas eleições.

O PT continuou nesse percurso positivo até, finalmente, a eleição de Lula a presidência do Brasil, em 2002. Nesse momento o partido que nasceu para romper com o modelo partidário vigente e fazer política de modo igualitário, transparente e com ética se viu submerso nas mesmas teias que os demais partidos brasileiros, sendo acusado de sucessivas denúncias de malversação do dinheiro público culminado com acusações como Mensalão e Lava Jato. Não obstante as denúncias deu continuidade ao seu modelo econômico e político com grandes vitórias, como por exemplo: PIB acelerados, redução das desigualdades de renda, redistribuição de bens, programas sociais mais ampliados, entre outros saldos positivos. Porém, todos esses ganhos tiveram um custo e um resultado divergente, quais sejam: 1) diminuição da identidade política do PT e, consequentemente, do petismo como modo diferenciado de fazer política, uma vez que fortemente se envolvia com a grande política nacional para maximizar ganhos; e, por outro lado, 2) o aumento do Lulismo para a classe menos abastada, como se fosse um grande pai, que redistribui a riqueza nacional dando luz, água, casa e educação para todos.

Porém, o lulismo está sendo colocado em xeque, neste momento em 2017, justamente pela condenação do seu personagem mítico em face da sua aderência a grande política e conluio com a elite dirigente nacional; que sempre o tolerou, mas nunca formalmente o aceitou. Nesse momento, é condenado a 9 anos de prisão e ficando inelegível, óbvio que irá apelar com os seus advogados em segunda instância, podendo ser condenado ou não, o que implicará poder se candidatar a Presidente ou não, em 2018 – tudo depende ainda do que estará para acontecer; porém, com grande desgaste para a sua imagem, desbotando ainda mais, por conseguinte, o lulismo, assim como o já esquecido petismo. 

AUTOR

César Figueiredo

César Alessandro S. Figueiredo Profº. Drº. em Ciências Políticas/UFT Universidade Federal de Tocantins Coordenador do Curso de Ciências Sociais/UFT Linha de Pesquisa: Memória Política; Partidos Políticos; Ditadura Militar.

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