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César Figueiredo - 21:13 09/09/2017

O outro 11 de Setembro: a tragédia chilena

Quando se falam na data fatídica de 11 de setembro, o que muitos se recordam é do atentado do Word Trade Center por aludidos terroristas árabes, em Nova Iorque. O mundo ficou perplexo e assustado com os limites do terrorismo internacional, sobretudo, pelos números de mortos que foram afetados com a implosão das torres gêmeas. No entanto, o que poucos se recordam que na mesma data, em 1973, o próprio Estados Unidos contribuíram de forma decisiva para a queda do Presidente legalmente eleito, Salvador Allende.

Para compreendermos o golpe militar do Chile de 11 de setembro de 1973, primeiramente, temos que entender as condições políticas em que vivia o país: 1) em 1970 é eleito o Presidente Salvador Allende, representando uma ampla coalizão política capitaneada pelo Partido Comunista do Chile e pelo Partido Socialista, denominada Unidade Popular (UP); e, 2) assume o governo disposto a construir um modelo de transição ao socialismo no Chile, que ficara conhecida como via chilena. Entre as suas políticas estava inclusa na sua plataforma as seguintes proposições, quais sejam: reforma agrária, nacionalização das indústrias e, principalmente, nacionalização das minas de cobres que representavam 80% das exportações do país e que eram exportados em sua maioria para os Estados Unidos. 

Obviamente, que tal processo em curso sofreria os reveses de um projeto em disputa: de um lado, sofria os reveses da pressão da burguesia nacional associada e em conluio com o capital internacional, não disposto a perder os recursos provenientes das minas de cobre; de outro lado da disputa, ficavam os partidos de esquerdas que tentavam apoiar o governo de Salvador Allende impulsionando as reformas pontuais. Sendo que, convém realçar que embora houvesse amplo apoio dentro do campo da esquerda, igualmente, esse campo também estava em disputa, pois havia organizações mais radicais de esquerda que tentavam forçar um processo de ruptura institucional mais abrupto para o socialismo, não apoiando, portanto, integralmente o governo Allende. Como resultado desse processo Allende tinha que se equilibrar num fio tênue: entre implementar reformas dentro do campo legal e brigar com o imperialismo; e, ao mesmo tempo, conter os ânimos mais acirrados dentro da fileira da sua própria agremiação (UP).

Aproveitando essas brechas o imperialismo cessa as negociações econômicas com o Chile não comprando mais o cobre chileno e patrocinando sansões econômicas; como se não bastasse resolve não negociar mais a dívida com o país estimulando um colapso econômico. Em posição semelhante a burguesia nacional promove um locaute, situação essa que ocorre quando os empresários resolvem fechar as empresas com o intuito de não produzir, a fim de asfixiar a economia e justificar uma crise econômica e política. Somado a essas questões patrocinam uma grande greve dos caminhoneiros, principal meio de transporte do Chile. Em síntese, o país fica politicamente e economicamente asfixiado e a classe média golpista sai para as ruas solicitando reformas e deposição de Salvador Allende.

No dia 11 de setembro de 1973, após várias tentativas de legalização política e reformas estruturais a fim de conter a sangria, as forças armadas rompem o Estado de direito e iniciam uma sangrenta ditadura militar que durou várias décadas. O imperialismo americano venceu em comunhão orgânica com as forças militares e a burguesia, sob o endosso da classe média golpista. O Chile pagou um preço duro pelo golpe, uma vez que foi o primeiro país da América Latina que serviu como laboratório para a onda neoliberal do Estado mínimo, ou seja, a não intervenção do Estado na economia, a venda de estatais ao capitalismo internacional e o fim dos direitos trabalhistas. Além dessas questões políticas, o sofrimento do povo se dimensionou com uma cifra superior a 40.000 mortes pela polícia política: a verdadeira tragédia de 11 de setembro foi chilena.  

AUTOR

César Figueiredo

César Alessandro S. Figueiredo Profº. Drº. em Ciências Políticas/UFT Universidade Federal de Tocantins Coordenador do Curso de Ciências Sociais/UFT Linha de Pesquisa: Memória Política; Partidos Políticos; Ditadura Militar.

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