PRÁXIS POLÍTIKA

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César Figueiredo - 11:09 16/04/2018

A guerra na Síria e a invasão americana

Os conflitos nos países árabes já fazem parte do enredo da política internacional, pois possuem todos os elementos visíveis há décadas no cenário político, permeado por brigas religiosas, étnicas e, principalmente, econômicas. Para explicar o cenário da guerra Síria precisamos, inicialmente, enfatizar que a presidência do país é governada há mais de 40 anos pela mesma família: 1) primeiro, o país fora governado de 1971 a 2000 por Hafez al-Assad que começou como hábil general até efetivar um golpe de Estado e tornar-se presidente da Síria, e, 2) posteriormente, seu filho Bashar al-Assad assumiu o poder a partir de 2000, através de um referendo que concorreu sozinho.

No início de seu mandato ocorreu o que se convencionou chamar de Primavera Árabe, que em linhas gerais foram rupturas dentro dos governos dos países árabes impulsionado pela população civil clamando por reformas. Houve a partir da Primavera Árabe uma tentativa de reforma dentro do Estado Sírio, porém rapidamente abafado pelo governo de Bashar al-Assad, obviamente, que tais bloqueios políticos ativaram sérias rusgas refletindo no início de conflito entre facções étnicas e religiosas. Ainda, devemos realçar que embora haja uma cultura religiosa muçulmana hegemônica no país, no entanto esta se fragmenta em correntes próprias e que irão ser ativadas por organizações políticas de diversas matizes.

Além das próprias rupturas internas também há o apoio internacional que acionou mais conflitos: de um lado apoiando Bashar al-Assad, temos a Rússia e o Irã, de outro lado contrário ao Presidente e auxiliando os rebeldes, há o apoio da Inglaterra, Estados Unidos e França. Devemos atentar que este jogo de influência e de incitações de conflito é permeado fortemente pela cobiça do controle do Petróleo sírio, riqueza que representa a maior matriz econômica da Síria chegando a 40% das exportações nacionais. Também, devemos apontar a posição estratégia que a Síria ocupa na geopolítica, uma vez que pelo seu território ocorre a circulação de mercadoria entre o Oriente Médio e a Europa, especialmente, os gasodutos provindos de outros países árabes, tornando-se, portanto, uma potência estratégia no cenário geopolítico e econômico.

Nesta perspectiva, como se fosse peça de tabuleiro de xadrez, quem tiver o controle da Síria, consequentemente, terá o controle de expressivos recursos energéticos e políticos do Oriente Médio. Também, quem detiver o controle do jogo político será o principal jogador do cenário da guerra, melhor dito, quem dominar o cenário dentro da Síria ganhará a partida e a sua principal riqueza: o petróleo. Nesse jogo político de um lado impulsionado pela Rússia e de outro lado capitaneado pelo Estados Unidos, vencerá, portanto, quem tiver mais exércitos, melhores apoios internacionais e quem conseguir atiçar com maestria os conflitos internos nacionais, a fim de dividir futuramente esse butim milionário de guerra.

O Presidente americano Donald Trump anunciou o seu xeque-mate final atacando a Síria sob a alegação questionável que o exército de Bashar al-Assad tinha usado armas químicas contra civis; assim sendo, para combatê-los autorizou um ataque de mísseis sobre o país já devastado pela guerra. Em síntese, a maior potência do mundo e detentora da mais lucrativa indústria bélica pode acabar ganhando em todas as posições do jogo, tanto no comércio e consumo de armas de guerras, quanto depois no processo de reconstrução do país através das grandes construtoras americanas. E, finalmente, ganharia de presente o controle do petróleo como herança milionária dos conflitos interétnicos religiosos, que foram atiçados pelos próprios americanos no curso da guerra.

AUTOR

César Figueiredo

César Alessandro S. Figueiredo Profº. Drº. em Ciências Políticas/UFT Universidade Federal de Tocantins Coordenador do Curso de Ciências Sociais/UFT Linha de Pesquisa: Memória Política; Partidos Políticos; Ditadura Militar.

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