PRÁXIS POLÍTIKA

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César Figueiredo - 12:30 02/07/2018

As eleições de 2018: o desinteresse nas urnas

O quadro político atual do Brasil encontra-se totalmente desagregado e com um caráter apolítico, melhor explicando, embora tenhamos eleições regulares de dois em dois anos há uma total falta de interesse da população para o processo político e mais detidamente para a corrida eleitoral. Talvez, podemos enfatizar que em face dos sucessivos escândalos políticos, assim como dos rotineiros desvios de dinheiro da máquina pública pelos ocupantes dos cargos eletivos, haja um descrédito patológico para a política e, especialmente, para as eleições presidenciais em outubro.

Esse dado é um caráter extremamente preocupante, como se fosse um reflexo da ressaca política advinda do Golpe de 2016, evento extremamente deletério e que desestimulou os brasileiros, tanto para o processo eleitoral quanto para a motivação com a política. Os números são claros e demonstram uma tendência inquietante, na medida em que atestam o número altíssimo de votos brancos, nulos e abstenção, conforme podemos verificar: na eleição para prefeitura de Porto Alegre em 2016, o prefeito eleito teve 402.165 votos; enquanto os votos brancos, nulos e abstenção somaram 432.751. Ou seja, houve mais votos de pessoas que se negaram a participar objetivamente do pleito, do que os votos atribuídos ao prefeito.

A mesma tendência se reproduziu em São Paulo e, agora mais recentemente, na eleição para governador suplementar no Tocantins, haja vista que no 2º turno houve 527.868 (51,83%) eleitores que optaram pela abstenção, votos brancos e nulos. Tais séries indicativas demonstram claramente uma tendência que poderá ser reproduzida fielmente nas eleições de outubro, uma vez que até o momento nenhum candidato, seja à esquerda ou seja à direita, conseguiram galvanizar eleitores para o próximo pleito. Essa letargia se explica, pois o primeiro candidato nas pesquisas eleitorais encontra-se preso e sem nenhuma explicação de como efetivará uma campanha eleitoral viável.

Existe muitas informações falaciosas que afirmam que se mais da metade dos votos forem nulos poderiam invalidar uma eleição; ledo engano para os eleitores que gostaria de utilizar o voto nulo como arma de protesto. Na verdade, o voto nulo, em branco ou abstenção são simplesmente não computados como votos válidos e servem apenas para estatística. Portanto, quem pensar em anular seu voto, ou mesmo votar em branco ou se abster apenas estará perdendo o seu direito legítimo de escolher seus governantes. Nesse sentido, ao invés de anular o seu voto como arma de protesto, seria, todavia, muito mais produtivo escolher bons candidatos e estudar a sua trajetória política, a fim de realmente fazer o uso consciente do ato de votar como um exercício cívico.

Obviamente que o quadro político atual não faz nenhum esforço para reverter as expectativas de campanha, justamente por não ter nenhum interesse de reconverter a apatia da população brasileira, haja vista que não possuem mais nenhum projeto efetivo de nação. O Brasil se perdeu nesse atual cenário político, mais especificamente, os eleitores que não têm nenhuma opção consistente em que votar nas próximas eleições, pois os personagens são os mesmos. Talvez, por isso que alguns eleitores tendem a eleger candidatos que se apresentam falaciosamente como fora do meio político, infelizmente colocando-se nas campanhas como os ”Novos Salvadores da Pátria”.

AUTOR

César Figueiredo

César Alessandro S. Figueiredo Profº. Drº. em Ciências Políticas/UFT Universidade Federal de Tocantins Coordenador do Curso de Ciências Sociais/UFT Linha de Pesquisa: Memória Política; Partidos Políticos; Ditadura Militar.

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