CIDADE

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Daniela Souza - 07:28 12/02/2018

'Nós tínhamos uma história com a cidade', relembra Didi Praes sobre a escola 'Voluntários do Samba'

Esses momentos existiram logo depois que a Associação dos Artistas de Imperatriz (Assarti) foi fundada, 1982

Os artistas se comprometeram a preparar no seu cotidiano, um carnaval bonito. (Foto: Arquivo pessoal)

"O Luciano da Vancio, hoje mora aqui, ele é engenheiro civil. Herinque atualmente está lá pela Europa, virou pastor evangélico. Dona Ildener é uma carnavalesca maravilhosa. Isso foi em 1985. A marquesa era um homossexual da ala das baianas. Charram que já é falecido, era um famoso estilista da cidade, participava e criava os figurinos em cima dos enredos da nossa escola 'Voluntários do samba'. Ele nasceu e se criou próximo da Praça União. Charram faleceu, nos deixou há muito tempo, mas foi um dos grandes destaques".  

A memória viva de Didi Praes, pertencente ao grupo de teatro Óasis nos anos 80, relatou detalhes dos bastidores da escola Voluntários do Samba, que iniciou os desfiles em Imperatriz, em 1985. Inúmeros artistas imperatrizenses se esforçavam e se dedicavam para a construção dos figurinos, enredos e a composição de toda a história.  

O making-of por meio de fotos ajudou ela a relembrar a época das escolas de samba em Imperatriz. A conversa descontraída, embalada por músicas de ritmos animados, mostrou o tamanho da memória artística que ainda prevalece em si. 'Novos Baianos' era o som de fundo quando a artista recebeu aqueles que estavam a sua procura para ouvir sobre as histórias do carnaval antigo em Imperatriz. Dias antes do período carnavalesco, ela contou e se alegrou com as lembranças das escolas de sambas em Imperatriz, datada nos anos 80 e 90. Ao abrir o álbum de fotos, logo lhe veio a empolgação em falar das vivências: 

"Essa menina aqui, que já deve ser mãe, ela é filha de uma pessoa que trabalhava conosco na Praça da Cultura. A foto de 1986, ela estava ainda criança e desdentada. Já em 1989, ela era meio mocinha. Aqui do outro lado [página] temos os registros da Mocidade da Pedra da Vila União. Eu nunca entendi porque nós migramos para essa escola. Tem que perguntar para o Zeca Tocatins".  

Zeca Tocantins, Lambau, os filhos da dona Madalena do cartório, foram os fundadores e toda a família dela fazia parte da bateria. Henri Guimarães era um dos voluntários da escola e fazia o samba enredo, também puxador do samba. Segundo ela, quando migraram para a escola Mocidade, o local do encontro era o 'Pêxi Pôde'. "Ensaiávamos próximo a Praça da União. A nossa mais famosa ala era 'Vá ao Teatro', 1987, porque nós chamávamos por meio da ala o pessoal para ir ao teatro".  

Diz ainda que esses momentos da escola Voluntários, existiram logo depois que a Associação dos Artistas de Imperatriz (Assarti) foi fundada, 1982. Relembra que a classe artística de Imperatriz estava em um momento de inovação e começava a criar vários movimentos. "Criamos a feira de arte e outras atividades e a partir daí surgiu a escola 'Voluntários do Samba', criado pelo Teatro Ferreira Gullar (Assarti). Mauro, Zeca Tocantins, Henri Guimarães e Lambau ficavam na parte de percussão e sempre foram músicos. Mobilizaram o pessoal do recital de poesias e outros artistas e, dentro do Teatro Ferreira Gullar, criaram a 'Voluntários do Samba' que permaneceu por muitos anos".  

Os primeiros anos de desfile das escolas eram na Rua Coronel Manoel Bandeira, próximo a Escola Santa Teresinha e acabavam nas proximidades do supermercado Caldeirão. Nos anos 90 o percurso dos desfiles mudou, o local de concentração passou a ser a rua Simplício Moreira, onde hoje é a Fundação Cultural, próximo a Escola Graça Aranha.   

"Quando a gente criou a 'Voluntários', o Nilton do Panelão se manifestou e Manoel Cecílio também. Então três escolas se formaram e sempre era assim: uma ganhava em primeiro, outra em segundo e terceiro lugar. Nós ganhamos várias vezes. Teve um momento que entrava um governo que não nos apoiava e dávamos uma parada. Quando o Jomar Fernandes (2001) assumiu o governo, a cidade teve grande movimento em todos os segmentos culturais: festas juninas, artes nos bairros, as escolas de samba ressurgiram e desfilaram cinco escolas. Os nossos últimos desfiles foram no governo do Jomar [2004]", explica Didi, entusiasmada e com boas lembranças desse tempo. 

Apesar dos blocos de rua, pouco atrativos na época, sem grandes divulgações na mídia, as escolas de samba se destacavam. "As escolas de samba eram 'babados', 'lotados'. Era briga para entrar e desfilar numa escola. O doutor Pedro Mario desfilou vários anos na nossa escola. A cidade inteira ia assistir para ver o Pedro Mario lindo em cima dos carros, com seu corpo lindo. Na época do Jomar, foi o último desfile de todos nós e Pedro brilhou nessa Beira-Rio. Tinha jurados, arquibancadas, tinha tudo, porque na época do Jomar o desfile aconteceu na Beira-Rio", pontuou.  

Ainda na época do governo Jomar Fernandes, Didi ressalta que após o desfile das escolas, um trio elétrico aguardava o grande público que ia prestigiar as agremiações. Ela aproveitou para mostrar os registros fotográficos das pessoas na arquibancada e os jurados. Na época os artistas se comprometeram a preparar no seu cotidiano, um carnaval bonito. Produziam figurinos e não tinha comissões ou grupos para cada parte do carnaval, mas sim todos faziam de tudo. Cada um ao seu modo pegava algo para fazer e dessa forma, todos os figurinos, fantasias, adereços e enfeites eram construídos.  

Entre 400 e 500 pessoas desfilavam na Voluntários da Samba. A escola era toda dividida em alas e tinha ano que se fazia seis alas: ala infantil, do teatro, das bahianas, destaques, bateria, comissão de frente e abre alas, cerca de três carros passavam. Um grupo de jurados avaliava o desfile das escolas e o samba enredo. Uma equipe organizadora cronometrava o tempo e apresentava os grupos.  

"Atualmente as escolas de samba existentes se orientam quando veem as escolas do Rio de Janeiro, mas naquela época a gente mesmo se orientava. Tinha jurado para tudo: bateria, comissão de frente, alas das bahianas e tudo era julgado", relembra Didi.  

O Mário Só era o carnavalesco, além de coreógrafo, figurinista e pensava no tema. Atualmente mora no Rio. "Passávamos madrugadas confeccionando o figurino e adereços. Sobre os patrocínios, a prefeitura nos dava uma 'grana' e, antigamente, os empresários contribuíam mais. A gente ganhava dinheiro também dos empresários. Fazíamos muito coisa de papel machê isso economizava.  Eu e Mário fazíamos oficinas de papel machê, era tudo de papelão, o figurino de longe era tudo lindo, mas se desse uma chuva grande, tudo desabava".  

Para finalizar, a integrante da escola Voluntários explica que o interessante das escolas de samba de Imperatriz, é que apesar de ter sido uma atividade que envolvia muitos artistas e pessoas de diferentes classes sociais, a elite imperatrizense participava. "Nessa época não tinha chegado o ritmo axé aqui na cidade, só existia na Bahia. Tinha três clubes famosos na cidade: Juçara (elite imperatrizense que frequentava); Berro d'água e Tocantins. Os artistas se dividiam em três grupos e cada ia para um clube. Acontecia neles as prévias carnavalescas. O 'Baile vermelho e branco' foi criado por Jonas Ribeiro, era um local chique da cidade".  

Na decada de 90, em alguns anos a escola não saiu devido a gestão não apoiar os artistas. Com a chegada de Jomar Fernandes, a cidade teve forte apoio cultural e os desfiles passaram a acontecer na Beira-Rio, a partir de 2001. Fernandes deixou a governo em 2004 e as escolas de samba deixaram lembranças, registros fotográficos e boas memórias de uma época de ouro da classe artística de Imperatriz.  

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